A vida é uma trilha. Montanha acima.

Parece que foi por acaso que comecei a competir em corridas de montanha. Pelo menos, era o que pensava até escrever o meu livro.

Organizar ideias, resgatar momentos guardados nas prateleiras da nostalgia, tirar poeira de frases há muito tempo ditas. Tudo isso me levou a pensar em todo o trajeto que trilhei até aqui.

Eu vim lá de baixo, do pé da montanha. Passei minha infância e adolescência olhando para o cume, sonhando em um dia conquistá-lo. Queria ser um executivo, trabalhar de terno e gravata e ter um quarto com janela – morar na Cohab tinha dessas. Meus pais sempre me encorajaram a tomar o rumo da subida. “Tem de estudar para chegar lá”, dizia o meu velho, indicando a direção. Ele estava muito certo.

Dei minhas primeiras passadas cedo, porque meu sonho me cobrava isso. Quanto mais longe está sua linha chegada e mais cedo você se coloca a caminho, mais chances tem de sair vitorioso. Fiz minha escolha ainda moleque e tive de assumir o dobro da responsabilidade que uma juventude comum exigiria. Tempo ocioso? Só para dormir. E isso me sobra pouco, desde os meus 11 anos. Dividia minhas 24 horas entre estudos, trabalho e esporte. Na época eu dava o sangue nas quadras de vôlei. Literalmente.

Tinha de suar grosso para fazer tudo caber em um só dia e ainda encarar a montanha. Às vezes, o terreno ficava acidentado. Lodo, rochas, barrancos íngremes. Cada dia era um desafio mais difícil que o outro.

Sky running - KM VERTICAL - Brutalidade máxima - foto by Graciela Zanitti

Sky running – KM VERTICAL – Brutalidade máxima – foto by Graciela Zanitti

Dos trechos de faculdade, eu me lembro bem: na tentativa de conseguir meu primeiro estágio, entreguei o meu currículo e o vi descartado na lata do lixo. Fui demitido sem eira nem beira do meu segundo estágio. Quase não tive dinheiro para pagar minha rematrícula nos últimos anos de curso, e o esporte, que era uma rota alternativa, quase me escapou entre os dedos por causa do cigarro. Eu não podia desperdiçar aquelas chances.

Foram muitas as oportunidades que tive para desistir, mas se tem uma coisa que eu aprendi é que nada deve ser motivo para você abaixar a cabeça. Em uma ultramaratona, por exemplo, por mais preparado que esteja, a dor pode vir sem aviso. E ela o derruba. Nessas horas, ou você “engole o choro” – como diria a minha mãe – e vai pra cima, ou você desiste e volta de mãos abanando. O que nunca foi uma opção.

Não consigo imaginar onde eu estaria se tivesse ingressado nessa vida na categoria solo. Sempre tive muita sorte de poder contar com pessoas inspiradoras, dos amigos que me emprestavam roupas para ir à casa da minha namorada em Alphaville, ao chefe que me emprestou o carro zerado por quatro dias para acompanhar minha mãe no hospital. Logo após me contratar.

Foram momentos difíceis, mas que me fizeram reconhecer meus verdadeiros amigos e provar minha força. Foi encarando essa escalada que eu cheguei até aqui, no lugar da montanha que eu sempre sonhei conquistar.

Hoje, olhando para o livro pronto em minhas mãos, fico feliz de perceber que o topo era só mais uma etapa e que ainda há chão para subir. A vontade que me toma o espírito é a mesma daquele menino da Cohab. Ele não imaginava a ultramaratona em que estava se metendo, mas sabia que correr na trilha dos sonhos o levaria por uma vida incrível e repleta de pessoas maravilhosas.

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