Salomon Ultra Pirineu – 110K – 6.798m Montanha acima!

m um jogo de detalhes, você precisa ter atitude de protagonista!

A Ultra Pirineu foi um imenso jogo de detalhes que começou muito antes do que imaginava.

Comecei a preparação um pouco tarde para uma prova deste tamanho devido a uma cirurgia que fiz no meu pé no fim de 2017.

Alguns meses sem treinar e com muito medo de não voltar a correr, dei o primeiro trote somente no final de fevereiro. Ao conversar com o meu técnico sobre quais opções seriam possíveis em 2018, surgiu a ultra Pirineu e seus temíveis 110 k com 6.798 m de subidas acumuladas.

No fundo no fundo, sabia que podia contar com a minha experiencia para este desafio, pois já se vão 09 anos de experiencia em corridas de montanha, mas ao mesmo tempo me “cagava” de medo e sabia que não teria margem de erro na minha preparação.

Foram centenas e centenas de km’s, milhares e milhares de metros de subidas e descidas, videos estudados, percursos e afins.

Sou feito de emoção e cicatriz…

A Salomon Ultra Pirineu é a prova mais prestigiada da Espanha, realizada em Bagá uma pequena e simpática cidade cravada nos Pirineus, essa prova já teve a honra de receber os principais nomes do Trail Mundial, Kilian Jornet e a sua namorada Emilie Frosberg detém o recorde, a embaixadora da prova é a principal atleta catalã Nuria Picas campeã da Ultra Maratona do Mont Blanc. Bem, eu fazia parte dos 1.000 atletas vindos de todas as partes do globo para a 10 edição.

 

As 3:50 da madrugada toca o meu despertador, de fato não havia dormido bem, com o sono leve, fui despertado algumas. A primeira foi para atender um telefonema da minha filha, que ficou no Brasil e a segunda foi por conta de uma queima de fogos na cidade.

o despertador tocou e pensei comigo: “finalmente chegou o grande dia”, dou uma olhada no meu celular e “pipocam” mensagens de amigos que torcem por mim com mensagens de incentivo. Tomo uma chuveirada para despertar os meus músculos. A temperatura do quarto é agradável, dou uma ultima verificada na previsão do tempo e vejo que a chuva dará o ar da graça lá pelas cinco da tarde, decido usar camiseta de manga curta e um manguito.

Nesta prova, pude contar com apoio de uma equipe de anjos, formada pela Sofia, Nana, Mario, eles teriam a difícil missão de me acompanhar ao longo dos 110 km me encontrando nos postos de controle possíveis ao longo da prova, de fato era um luxo ver caras conhecidas e que te querem bem. Juntos eu e o Dr. Rafa (um querido amigo que esta prova me deu, médico especialista em cirurgia de mão e um apaixonado pelas provas de montanha, esta era 15 prova no ano, o cara é um monstro rs) seguimos rumo a arena da largada, já conseguíamos ver dezenas de lanternas acesas e sinto aquela adrenalina que ronda toda largada.

Dr. Rafa na sua 15 prova do ano , Mario e eu!

Dr. Rafa na sua 15 prova do ano , Mario e eu!

Dou uma ultima verificada nos meus itens obrigatórios, me preocupo por não ter conseguido ir ao banheiro “neurose de corredor” , mentalizo todas as passagens até a metade da prova.

Faltam pouco menos de 5 minutos para largarmos e o locutor da prova de nome Depa famoso no mundo do trail por usar um chapéu de cowboy,solta a voz agitando os atletas e a musica de Trevor Jones -  Promentory (O último dos Moicanos toca arrepiando a todos, e não demora para eu ter os meus olhos cheio de lágrimas”!.

Aquela ansiedade da lugar a uma imensa alegria ao ouvirmos a contagem regressiva, pois todos ali éramos iguais e só queríamos uma coisa, correr por varias horas e conseguir o feito de chegar a Bagà novamente.

Partimos rumo a subida mais longa da prova, ainda no escuro centenas de atletas ainda se aglomeravam afim de achar melhor o seu espaço na trilha. O céu esta repleto de estrelas e a lua se fazia presente o que seria um prenúncio de um lindo dia.

Eyes on the prize! Horas de montanha pela frente!

Eyes on the prize! Horas de montanha pela frente!

Ainda no escuro, passo pelo primeiro refúgio “Rebost” uma hora abaixo do que tinha planejado, trabalhando bem com os meus bastões sigo focado rumo ao Refugio Niu o mais alto da prova 2.520m de altitude. Os primeiros raios de sol surgem atrás das montanhas proporcionando para nós atletas uma das imagens mais lindas e o meu coração bomba de alegria. Passo por vário entusiastas, famílias inteiras que gostam de montanha, acordaram de madrugada para nos ver passando, gritos de Animo, Vamos, Vamos serviam de combustível para mim.

O clima que impera entre os atletas amadores é de extrema cordialidade, o ritmo é forte, não se perde uma passada a toa. Tenho em mente que em todos os pc´s, vou usufruir de tudo o que o meu corpo esta pedindo, procurando levar o menos peso possível na mochila. Avisto o refúgio Niu e o frenesi das pessoas é imenso, encontro a minha equipe o que pra mim foi uma descarga de adrenalina. Ainda muito muvucado, pude aproveitar pouco do refúgio. Saí dali pensando, fica ligado para não errar no próximo!

chegando no refugio Niu a 2.500m de altura

chegando no refugio Niu a 2.500m de altura

começo a encarar uma descida extremamente técnica até PC 3 Serrat onde o horário de corte era as 15:30pm, procuro fazer uma descida cuidadosa, com movimentos calculados para poupar os meus quadríceps, as paisagens são lindas, cavalos selvagens surgem do nada, vacas com os seus sinos enormes no pescoço fazem o seu balé, nos olham tipo querendo saber quem são esses intrusos em nosso habitat?!

Chego ao PC Serrat as 11:13 da manha praticamente junto com um dos atletas que havia feito todas as edições desta prova e que estava sendo homenageado pela patrocinadora em suas ações de marketing. Neste ponto, procuro caprichar na alimentação e na hidratação estava determinado a usar o menos gel possível.

A próxima etapa era chegar no km40 e com o passar das horas e sem tantos atletas juntos o meu desempenho foi ficando mais constante, corria mais livre. Não demorou muito e revi a minha equipe que correu comigo alguns quilômetros, normalmente eu andaria naquele trecho, mas com eles ali arrumei forças e cheguei bonito em Bellver. Este PC ficava dentro de uma ginásio, os atletas tinham que passar por um corredor cheio de pessoas que nos aplaudiam. Fazia um calor infernal, logo depois de sair de Bellver, considerei a parte menos empolgante da prova, tínhamos pela frente um estradão, e morro acima até Cortais.

Cheguei em Cortais que na minha opinião junto com o refugio Niu é um dos mais lindos da prova, neste ponto procurei não demorar muito. Ali checaram alguns equipos obrigatórios e quando isto ocorre é porque provavelmente você vai usar e a minha experiencia me dizia fica esperto pois algo vai mudar. Comecei a subir sentido a montanha de nome Aguilló e me lembrava do conselho da Manuela Vilaseca de que aquela subida não seria nada fácil. O tempo começou a mudar rapidamente, um vento cortante e alguns pingos de chuva me fizeram tirar o anorak da mochila. Me sentia um nada em meio aquela imensa montanha de pedras, o vento seguia na tentativa de rasgar a minha pele e a subida parecia interminável.

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Respirava fundo várias vezes, focava em mensagens positivas, tentava ver o copo cheio naquele momento confesso que não foi nada fácil, vários atletas me passaram, no fundo isso não importa a não ser pelo fato de eu perceber que não estava indo nada bem. Nós ultramaratonistas sabemos que por vezes vamos ao fundo do poço em provas tão longas o segredo é não ficar abraçando o capeta por muito tempo, temos que sair rápido dali rs. os passos continuavam lentos, um fotografo fez um registro mas o meu numero de peito estava coberto pela jaqueta dificilmente irei achar o momento em que eu abraçava o “belzebu”. Ao final daquela subida dei um sonoro berro “PQP”. Sentia um desconforto precisando ir ao banheiro, parei atras de uma moita e juro que tentei …como posso assim dizer…passar um fax? mandar um numero 2?..sim bem isto…mas não consegui…só expus a minha bunda branca para uma meia duzia de ultras verem.

Até chegar no km 74 em Gosol foi uma verdadeira epopeia, aqueles 10kms de descida pareciam uma maratona não chegava nunca. Gosól era a principal parada, pois ali encontraria o meu drop bag com itens essenciais para continuar a minha jornada, algumas vezes tive duvida se conseguiria seguir adiante de fato correr uma ultra maratona é muito mais coração do que razão.

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Cheguei ainda de dia, parecia um campo de concentração, dezenas de atletas se aglomeravam, uns descansavam outros comiam e trocavam de roupa. Naquele ponto não consegui comer nada do que era oferecido. No meu planejamento preferi comer a comida que tinha levado o que me serviu de um grande alivio. Ali, exatamente naquele lugar foi  uma mistura de decisões, enquanto o Mario me perguntava do que precisava, eu só pensava em tentar comer algo, depois de nao conseguir comer nada pois o macarrão estava sem nenhum tempero, sem sal inclusive, tinha linguiça espanhola (arriscado demais pra mim), o Mario abre meu drop bag e fala assim: Cição tem isso aqui! Era a comida especial daquelas comidas tipo de astronauta, precisava de água quente coisa que não tinha, usei o caldo que a organização oferecia e coloquei dois generosos copos dentro da embalagem esperei uns 5 minutos e comi tudo o que podia.

Em tempo, precisava muito ir ao banheiro, descobri onde era, fui e quando estava literalmente naquele momento, surge dois moleques fazendo arte pela janela que ficava bem acima da minha cabeça, “rindo alto e falando num bom catalão” só tive tempo de falar, saí daqui moleque fdp´s hahahahahaha era um sinal que estava vivo novamente.

Os dois próximos pc´s passaram rápidos , Estasen e Gresolet no km 86, a noite ja havia chegado e com ele a chuva misturada com neblina. De Gresolet a Vents não se enxergava um palmo na frente do nariz, era uma descida muito técnica, single track mesmo sabe? colocava a luz da minha headlamp no mais baixo, igual ao meu pai finado Seu Raimundo meu velho pai fazia quando ao dirigir o seu Mercedão pelas rodovias do Brasil e mesmo assim não fazia muito efeito, procurei ficar atras de dois atletas que desciam com maestria, decidi que ali tinha tinha que dar o meu melhor pois afinal de contas, eu já tinha feito as descidas mais técnicas e importantes no Brasil era a hora de mostrar que tinha carta pra trucar rs.

Ao chegar em Vents tive uma grata surpresa de encontrar com a minha equipe pela ultima vez, era um PC no meio do nada, pequeno e friorento sabe, ali troquei a minha segunda pela, a chuva ja tinha parado e lembrava das palavras da Sofia e da Manu, que tinham duas subidas para enfim chegarmos em Bagà, mas eram subidas de pelo menos 1h30m cada uma e por estar com mais de 100 kms de prova e muitas horas não seria nada fácil. A primeira até o ultimo refugio de nome Srt. Jordi eu esperava umas 2h30m, não olhei no relógio, estava focado em cada passo daquela subida que pelo gráfico não parecia assustar mas ao vivo era interminável, ao chegar, dei um lap no relógio e vi 1h26m minutos, pensei caracas Cição você esta forte agora falta somente mais uma e derradeira subida.

Naquele PC tive que ingeri o ultimo gel, coloquei bastante Pepsi (Por que não?) na boca e misturei com gel, foi como uma bomba no estômago, quase vomitei, foi um horror, a voluntária da prova me ofereceu algo só tive tempo de agradecer e sair dali urgente.

De fato corremos mais com o coração do que com as pernas, naquela altura ja tinha batido com a minha cabeça num tronco que pela força da pancada devia ser grave, no fundo do meu coração não queria parar, apesar de muito tonto resolvi continuar, ali corria praticamente sozinho. Encarei a penúltima subida suando grosso, procurava não dar bobeira em nenhuma passada, era uma travessia de rio atras da outra, cravava meus bastões no meio da água de forma a me equilibrar​ e passava por cima das pernas evitando molhar os meus pés.

Naquela altura minhas pernas berravam, queriam parar e o meu coração falavam para continuar, para variar, conversava com o meu pai, com a minha mãe e as minhas filhas vinham na cabeça. Faltavam menos de 5 kms, era uma perna de asfalto e um pouquinho de trilha, acabei alcançando alguns atletas.

Entrei na cidade e ali um leitor de chip apitou avisando a todos os que me acompanhavam que eu estava finalmente chegando ao virar a esquerda pelo caminho mais rápido, tomei um sonoro aviso de que estava indo pelo caminho errado, tinha mais um quilômetro e pelo menos uns 400 metros de subida, pensei comigo “isso mesmo era necessário??” , ao terminar a subida, entrei no funil da linha de chegada, algumas pessoas aplaudiram, e uma mistura de emoção e alívio tomaram conta de mim quando vi o pórtico, agradeci aos céus e agradeci por tamanho feito realizado.

emoção a flor da pele, muitos meses de preparação e o exato momento de que tudo valeu a pena!

emoção a flor da pele, muitos meses de preparação e o exato momento de que tudo valeu a pena!

Só pensava comigo, meu Deus eu consegui!

É isto…

 

ahhh…alguns números do Salomon Ultra Pirineu 110k

 

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Cição

 

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